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quarta-feira, 22 de julho de 2009

*Quadro 30x40 (Acrílico sobre Óleo) por Leandro Neres;

Sangria Celeste
(Camila Costa)

A Alma se encontra em cores,
descobre caminhos, abre-os, e, por vezes, fecha-os.
Mas fechar os caminhos abertos na alma, dói.
Quase sempre, sangra.
A boca rubra silencia e o céu se abre, vira um mar,
De sangue.
Deserto.
Ao certo.
Uma Sangria Celeste.
O tempo. Cicatriza.
E a beleza aparece: cor, cheiro e gosto de poesia.
Arte.
Ar te faz voar. Avião. Avista outras cores, outros caminhos, outras almas.

"Num deserto de almas também desertas,
uma alma especial reconhece de imediato a outra.”
[Caio Fernando Abreu]

Publicado orginalmente em Cera Quente.
http://ceraquenti.blogspot.com/

Clichê

sábado, 31 de janeiro de 2009

Imagem em DeviantART


Cala.
De tua investida pungente desfez minha procura de paz.
Calada, agoniza meu salto ao caminho da vida.
Saída fugaz que me expulsou de teu racional sentimento.
Calou-se e criou teu muro.
Fugiu para um abraço que desconheço e me destrói.
Calando disse tua verdade.
Disse teu verbo odiar e anulou minha esperança.
Calado escrevo versos clichés de sábado chuvoso.

Manhã

sábado, 24 de janeiro de 2009

Imagem em DeviantART


A tensão entre o rubro febril e o frio movimento.
Olhares que não se cruzam.

São dez da manhã, um soluço matinal dá o desfecho de sua última noite.
Eles já sabiam que aquela seria sua passagem sem volta. Para ela foi um recomeço. Ele perdeu o chão. Viu teu espelho quebrado.

Quis sangrar, sentir seu coração, ser feminino e entender seu caminho, sua escolha. E num arrepender-se despertou seus vazios, foi chuvosa sua primeira manhã.

Acordou e viu uma paisagem crua, abraçou sua nova solidão e quis pegar o primeiro vôo de volta ao abrigo, mas sentou, tomou seu café e sucumbiu a sua frieza melancólica de homem matuto.

Sobre Lobos

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Sobre Lobos
(Poema de André Ricardo Andrade - andreandrade_sl@hotmail.com)

Lobo da Noite

Subindo pela montanha
Sem que os pés toquem o chão
Descobrindo em suas entranhas
Que a água corre com perfeição

Chegando próximo ao céu
Tocando as nuvens brancas
Sentindo o doce véu
Esquecendo o profundo pranto

Sinto-me um lobo da noite
Uivando para lua bela
Olhando as estrelas
Sou sentinela

Lobos

Nada viu e tudo julgou
Nada sentiu
Seu ego predominou
Iluminei a noite quando a luz se apagou
Fui até o sol
Pra sentir o calor
Nadei em um oceano de pedras
Sobre ele flutuei
Encontrei o verde nesta selva
Subi até a montanha
Procurei por aquela visão
E senti na alma a criação

Lobos me viram
A mim vieram
Lobos uivaram
Algo para mim trouxeram
Era o dia, era à noite
Era o sol, era à lua

Lágrimas

Lobos insaciáveis esperam pelo som
Este que soa no interior da alma
Liberdade e igualdade no mesmo tom
Abutres voam rasos
Ursos tornam-se coelhos
Quem antes andava, hoje vive de joelhos
Morcegos voam de dia
Cães não latem mais

O incorreto nos traz
Insanidade apenas cega
A dor não é comum
Saudade com esperança
E as lagrimas mais uma vez correm

Imunes a Morte

Lobos imunes a morte
Artífices do amor
A lamina que um dia me causou um corte
Hoje bebe prantos e terror

Passos evoca a noite
Olhos pesados perdidos
Dançando cegamente
Os mortos de ontem, hoje estão vivos

Percepção

A serpente de fogo surgiu ao norte, nas entranhas do ódio. Ela é grande, não quero que ela chegue até aqui. Partirei em fuga com meu barco pelo denso oceano de gelo.

As ruas estão cheias as vozes não se calam. As pessoas parecem condenadas a esta perpetua rotina. A busca do TER, esquecendo o SER em uma esquina qualquer.

O sol surgiu, as aves levantaram vôo, a água desceu da nascente, o vento começou a soprar. A mais bela das estações estava descoberta. O rio cruzou rapidamente sob a percepção da rocha. Os olhos de cristal brilharam.
O repouso do vento surpreendeu a aurora. O repouso do sol cedeu no agora. A lua apareceu quando o coiote uivou.

Viajante

Aventura é o sangue do viajante
Tanto a conhecer
Na vida, para apenas por um instante
É na hora de morrer

Quando a noite chegar
E o lobo trouxer aventura
Nas águas irá encontrar
A mais bela ternura


O olhar é do cume distante
Que parece desafiar nosso viajante
Seu sangue muito esquenta
E lá está novamente sob vento constante

A Fada de Avalon

Mármores de eterna brancura
Imunes ao passar do tempo
É o lobo sedento que uiva com bravura

Território assombroso
Pântano sem fim
Estrelas solitárias permanecem
Constelações são mundos imperceptíveis

Os olhos dos lobos são o alem
A fada de Avalon procura um, porém
E lá continua o barco
Deslizando na crista de teus longos cabelos

*Poema escrito pelo meu amigo André, amigo-poeta de canções, bandas, vida boemia, estudos e discussões.

Separados, pensamentos juntos

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

 
Imagem em DeviantART
Manga com sabor de beijo na esquina. Música que se confunde com imagem. Sorriso cor lilás e cheiro de maçã. Ando por cima da água pra brincar de Deus, balanço a perna sem parar, meus dedos coçam, queria estar noutro lugar. Mão que transpira e busca solução pra coisa que quer dizer, mas não diz. Sinto saudade de amor carnal nunca experimentado, como das flores que cantam sozinhas pra me fazer companhia. Não pense que estou tentando usá-la, foi só encontro que estava pronto a ser marcado. Quando estou com você, o inesperado sempre acontece e fico sem controle, mas sempre minto no final. Há sempre crianças jogando bola e saudade de tempo que não volta mais, mas não sinto falta. Pois tenho existência inquietante de quem não se mostra apesar de se despir, já que sempre me incomoda o filho do vizinho que faz manha pra não ir à escola.

Sou sorvete derretendo em pingos que lembram tarde de verão, ou clara de neve com limão que encobriu o último bolo da vó, ou poesia sem sentido sobre caminhos já trilhados. Com você passaria a tarde sorrindo trilho de trem, estação que é o esboço da minha próxima pintura, sua companhia me faz esquecer que um dia já sofri. Eu já sofri? Sofrimento que estava ao lado até uns dias atrás, abri as janelas e o sol apareceu, até as flores no jardim estão dançando. Tenho voz de homem que diz mentiras pra esconder as rugas de quem já amou demais e fecho portas e blindo cadeados pra prender felicidade furtiva. Sinto garganta seca de tanto esconder palavra, de tanto fugir, mas que segue a vida em paz. Estou sempre em busca de fonte de água pura, felicidade que brilha, que é sino de capela, que é benção apostólica, moça sorrindo no portão, pés descalços, vestido florido, rosto lavado, uma tarde de sol.

Mostro minha alma obscura a você e não importa se o tempo está acabando, sempre será pouco, com você vou sempre depois das cinco da manhã, fazendo brincadeira de criança, porque faz de conta é parte da tragédia da vida. Escondo alma e tento abrir o coração, mas tem frase que precisa ser dita pra não haver separação. Brincadeira de aprendiz, somos gente que não sabe viver sem cair. Antes fosse mulher de verdade, é mulher pela metade, partida sempre te faz chorar. Mas é vida, é caminho comum, gente que sofre, que não lembra que sofreu, que se agarra, que canta, que mente, que diz, que é viajante e, olhando o olhar de quem fica só, agora sei a dor que já causei, não pensei que fosse tanta mas ninguém tem culpa, a vida é feita de viagens também.

Tem agora um brilho no escuro que finge ser vida, mas é vela que se apagou a alguns anos-luz e velo por toda falta de luz, rezo o credo que dá vida toda vida e, se não precisar de credo, rezo a lógica que dá paz à falta de fé. Esse ritual de acasalamento, entre o vermelho sofrido e o fio de vestido que sobrou em mim, busca incessantemente por paz, mas quer loucura em seu copo de mulher sofrida. Todo ritual exige passagem. Em alguma passagem o rito dá significado à magia sonhada em cinema mudo, essa seqüência de fatos psicológicos, em tempos perdidos entre o querer ir e a vontade de morrer sem ter você. E tenho mesmo que partir, mas levo nossa paz aonde for, que é cor de rosa, cor de rosa despetalada.

Sempre esteve

quinta-feira, 20 de novembro de 2008


Esteve comigo nos traumas de infância
Esteve comigo quando tentei agradar me perdendo.
Esteve comigo quando paguei o preço por ser eu mesma.
Esteve comigo quando tomei bomba mesmo estudando pra caramba.
Esteve comigo quando passei sem tocar em livro algum.
Esteve comigo quando fui rejeitada.
Esteve comigo quando segurei meu ego no chão sem fazer compensação pelas rejeições que tive.
Esteve comigo quando eu estava a fim de lanchar e comprar roupas legais e não podia.
Esteve comigo quando eu não sabia muito bem oque fazer com meu dinheiro.
Esteve comigo quando eu tentei orgulhar meus pais e não pude.
Esteve comigo quando obtive reconhecimento sem esforço.
Esteve comigo quando eu tinha muitos amigos bajuladores.
Esteve comigo quando eu descobri não serem amigos os bajuladores.
Esteve comigo quando tentei blasfemar.
Esteve comigo quando o defendi contra quem o ofendia.
Esteve comigo quando assinei meu nome errado.
Esteve comigo quando esperta tive respostas na ponta da língua.
Esteve comigo na depressão.
Esteve comigo quando pensei nunca conseguir ser tão feliz.
Esteve comigo quando pirei de tanto ficar em casa.
Esteve comigo quando chorei querendo ter tempo de ficar em casa.
Esteve comigo nos bares e nos shows.
Esteve comigo nos cultos e nas horas sozinha no meu quarto.
Esteve comigo em toda minha humilhação e constrangimento.
Esteve comigo nos momentos de glória e total aceitação.
Esteve comigo no conforto do isolamento.
Esteve comigo na iniciativa de me abrir de novo.
Esteve comigo no escândalo da fé.
Esteve comigo no redescobrimento da mesma.
Esteve comigo quando baixei cabeça, engoli choro e esperei por justiça do alto.
Esteve comigo quando mandei a justiça do alto pro espaço e dei resposta atravessada e mandei tudo pra puta que pariu.
Esteve comigo quando menti e pedi ajuda pra não ser descoberta.
Esteve comigo na vergonha de sempre dizer a verdade.
Vezes interveio milagrosamente.
Muitas não.
Mas, esteve comigo!!

Pher

Publicado no Recanto das Letras em 31/01/2008
Imagem em deviantART

Reflexos de um sublime amor.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Uma troca de olhar sincera, eu paro, sinto-me desajeitado, minha blusa marrom e minha calça velha, estranho que há tanto por fazer e fico com essa mania de olhar meio de lado, torto, sempre com uma ou outra mão no bolso. E ela nota isso, sempre se deu conta de minha insegurança, essa imagem que eu vejo no espelho e só ela consegue interpretar, como se soubesse o porquê de cada gesto, ou até o previsse antes mesmo de eu pensar em fazer. Esta imagem é meu silêncio refletido em desajuste, minha calma após tamanha tempestade de dias em luto, um cortejo fúnebre daquilo que nem chegou a nascer. Se foi amor, ele se foi só, foi quase-amor, foi desencontro, estrela intocável num poema de algum poeta do sul.E lembrando de seus olhares refletidos em cartas e poemas não publicados viu que nunca encontrou, assim como ao olhar nos seus olhos viu as marcas que denunciam todo desencontro de amores sós.
Ela sentia medo desse tão conhecido reflexo. Como se ele fosse decifrar seus pensamentos mais torpes, como se a imagem toda maquiada do seu rosto não conseguisse camuflar medos e apreensões. Ela tinha olhos de ressaca, não os de Capitu, seus. Suas ressacas, suas marés, seus indo-e-vindo. E não queria enxergar em si a personificação mal esculpida da confusão, então virava o rosto, como uma ingênua criança... Ela sabia que era como uma flor, não era uma flor comum, era flor sem espinhos, que seu perfume conquistava e lapidava qualquer pedra embrutecida pela dor. 

Ela não era espinhos, era rosa dos ventos que guiava seus amantes aos mais puros pensamentos, as sensações de paz, aos sons de cura vindo de paisagens  bucólicas, livres e de paz. Mas insistiam em não saber como olhá-la. Eles eram como aquele que diante do espelho não sabia ver quem era e só via dor e desencontro. Ela lhe mostrava os melhores caminhos, as melhores rotas de fuga, soprava em seus ouvidos como fugir da tentação que era tentar tocá-la, ela, a flor mais bela e pura encontrada na natureza se sentia espinho, mas não era, nunca feriu, nunca seria capaz de ferir. De tanto ver sofrerem ao não saberem lidar com sua mágica e poesia não via pelo seu espelho a imagem de quem realmente sempre foi. Por dias olhava e parecia cega diante das palavras de acusação que injustamente sopravam em teus ouvidos. O espelho nada dizia, só mostrava teu silêncio, só teu silêncio seria capaz de lhe revelar quem ela era...
Um dia, um homem-poeta-músico-pensador a compreendeu. Ele se viu no reflexo dos olhos dela, e encontrou o espelho de sua alma. Sem desenhar as palavras que sempre foram escritas em papéis machê, sem machucar as folhas de tão delicada rosa, ele simples a tocou, com a mesma magia sublime que dedilha e rouba notas o violão. E ela, embriagada, pela primeira vez, com a melodia do amor-canção, se entregou. Pois o vidro, que outrora mentia em reflexos, finalmente se desturvou, e nele ela se via e se sentia. Eles se compreenderam numa mistura de prosa, versos, notas, folhas, flores, espinhos e excitação. E todos os espelhos foram olhados e tantas vezes se viram, como pra guardar em si cada pedacinho desse inédito momento. Tão sensíveis que eram, sabiam que como surgiu, podia se acabar. Como um reflexo.
Imagem retirada de DeviantART

Dia mundial do Poeta e nacional da Poesia

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!*

______________________

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
E ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não ter sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, e ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!**

______________________ 
ESPANCA, Florbela. Poesia de Florbela Espanca. Porto Alegre: L&PM, 2002. (*p. 23) (**p. 75)

Amor inverso. In-verso amor.

domingo, 19 de outubro de 2008

Imagem em deviantART
Amor é só.
Começado nem sabe quando.
Incompleto, versos em metade.
Sentido em único fragmento.
Amor perdido em bilhetes, cartas, recados.
Verso pelo caminho que esqueci.

Esqueci que caminho pelo verso.
Recados, cartas, bilhetes em perdido amor.
Fragmento em único sentido.
Metade em versos, incompleto.
Quando sabe nem começado
só é amor.

Nós em jazz...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Imagem em deviantART


Um último encontro no tempo em que era paz
Preocupação com preço de bilhete de ônibus
Levar bicicleta pra consertar e esperar em
fila de banco...

Um último encontro com a tentativa de
resgatar a amizade de tempos atrás
de anos perdido...Escondemos-nos. Todos nós.


Cada um sabia de sua solidão.
E caminhando calados foram
se esquecendo. Não lhe permitiam a dor
do confronto.

Estação de desilusão. Ele não suportou
tamanho sufoco. Apatia em dissabor. Em
mentira estampada em cada frase de auto-
-consolação.


E se foi, fingiu ser herói. Em sua dor e
desespero fugiu para se reconstruir.
Deu o melhor de si. 

Engoliu em doses
absurdas todas as letras. E engolindo
as palavras foi perdendo tudo o que possuía.

Perdeu a fé, perdeu a herança e sua tradição.
Ele não era mais. Encontrou com filósofos
e fumadores de ervas e charuto.


Numa noite chuvosa ele recebeu o último
adeus. Não havia chão, nem para onde ir.
Tudo o que ele queria era escapar para algum
lugar. Mas não podia. Não tinha para onde ir,
nem o que fazer. Foi a dor mais terrível.

Foi ao pior veneno e teve que engolir.
E além das palavras ele passou a engolir
cianetos em provas de superação. A cada gole
uma parte de si que fugia.


Tomou coragem. Lembrou cada cena do último
momento. Quis eternizar o tempo em que era
paz, em que havia harmonia. Eram sós, mas
eram um.

E sentou de fronte a grama verde.
Era aparente a sua fraqueza. Ouvia pessoas
comentarem sobre sua repentina mudança.
Mas ninguém nunca, em momento algum falou
com ele. Ele apresentava-se tão forte
que não poderia precisar de ajuda.


E sentado ele enfrentou só teu desconcerto
com a vida e com o que havia de luz.
Ele escreveu palavras de força. 

E não foi Cristo quem o socorreu. 
Não foi mesmo. Cristo não lhe disse nada. 
A Santa Ceia naqueles dias 
não passavam de pão e circo. 
E a dor, só, aumentava.


Quem lhe socorreu foi um daqueles
filósofos com cheiro de fumaça e odor de maresia.
Aquilo que não lhe destrói o fortalece, 
soprou-lhe o anti-profeta alemão.

A esperança só pode vir por meio de desesperançados.
A esperança daqueles que haviam paz não lhe servia.
Não poderia lhe ser útil.


E enviou aquele papel rabiscado e trêmulo.
A dor fugiu junto com aquelas palavras.
Vomitou do veneno. Bebeu do cálice e do pão
como se fosse a sua primeira comunhão.


E o último encontro foi encontro de paz.
Eles não mais estavam sós. Eles tinham abrigo.
Moravam distantes. Mas sabiam que cuidavam
cada um de si. E que o fim não era sombrio.
Mas a alegria de algum dia se reencontrarem
em paz.

Hereges são imortais

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ser herege é andar na contramão;
É dizer o não dito, falar o que foi proibido,
e por vezes, ser mal-dito;

Hereges têm um poder indestrutível,
de lutar com o intocável no poder de pensar,
de existir e não se deixar levar pela historia,
mas na história agirem, conscientes, existentes;

Pensamentos não se depreciam, mas se criam;
Somos feitos de palavras ditas, de palavras mal-ditas;
Um herege é aquele que da palavra absorta
reconstrói àquilo que da vida e lhe eleva a beleza;

Para curar um herege não basta um castigo,
Por isto a fogueira é o único caminho;
Porém, mesmo que em cinzas, este ser pode renascer,
nas almas, nos corações dos que respiraram daqueles pensamentos;

Pessoas morrem, mas pensamentos sempre ecoam, incomodam, renascem.

Ao som da Rapsódia Hungara N. 02 - Franz Liszt

terça-feira, 23 de setembro de 2008






Rapsódia em movimento - O convite

Tímida, você? Olho em teus lábios, boca
face cor de maçã, sorriso espontâneo
Aceite, é só um movimento, venha cá
isso, sem pressa, pode rir, ode a alegria

Não se preocupe, isto, está indo bem
vê como não é difícil? Sim, as crianças
elas também dançam, todos aqui
pronto, estamos em sintonia.

Vejo teus olhos fechados, silêncio
estamos só nós dois, sinto teu pulsar
teu coração soa leve, silencia em noturnos
logo se alegra, começa a acelerar, festivo

O movimento é o mesmo, a dança é ímpar
O coração é que muda de intensidade
parece outro tema, minueto, renovemos
nosso amor ao som da inspiração

Sorrimos, já estamos íntimos, somos um
scherzo bailando a canção de circo
já não importa qual é a variação
o movimento se repete, o amor se constrói

Até a sonata infantil nos aproxima
E o salão é nosso, não importa
todos os amantes pensam o mesmo
tudo ao redor é só figuração musical

Recordação

terça-feira, 12 de agosto de 2008


...sea... by ~frida-vl on deviantART

Pela noite.
Ó morena do mar,
Trago, consumo,
desejo em palavras
fortes ventos de esperança,
em noturna viagem, descanse.
Longa jornada,
és navegante
sob sopros do divino,
Que o sol lhe apresente o céu mais limpo...
Olhai as aves do céu,
Com sabedoria e buscas,
Descanse ao meio dia,
Sinta a vida, a consumir,
construir, fortalecer...
E o mar, está, existe, assim:
como versos confusos, por vezes
em decassílabos, em tempestades,
por vezes, monossílabos, em
Paz...
E faça festa
Então, se quiser,
Lance-se ao mar,
esqueça os mapas,
Saiba, haverá calmaria,
A mão que te guia a abraçará,
O infinito que a possui por graça
aqueça-lhe num sem-fim de alegria,
sorrisos, como versos em poemas,
que parecem não ter começo, nem fim...

Na voz de um cantador

sábado, 9 de agosto de 2008



1981
Atentado à segundo.
Triste mulher do lado.
Rei Diamante.
Se foi o chofer da praça.
Cinema novo em luto.
Projeto Brainstorm também.
Cortado. Nasci de assim.
E teve mais.

Eu não te amo mais

quarta-feira, 6 de agosto de 2008


Hate by ~Aurelia24 on deviantART

Eu não te amo mais.
Dou-lhe minhas costas e paz.
Fica melhor compor assim.
E não engasgue, por favor.
A você, infortúnio de dias
sem calma, fique aí, eu
te desprezo, com toda minha angústia
eu te abandono.
objeto de depósito de dores amargas
frias e insanas.
Fica com teu orgulho,
consuma-se em velório e solidão.
Podem até virem te buscar
Não encontrarão, não me ouvem.
É preciso gritar?
Eu não te quero mais!

Avientame - Cafe Tacuba

terça-feira, 5 de agosto de 2008



Desejos vãos
(Florbela Espanca - Livro de Mágoas)

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

Blues Before Sunrise



Kath Bloom - Come Here


Desilusão de um sonho.*

Limosine e os cílios
Ah, querida, com seu lindo rosto
Derrame uma lágrima no meu copo de vinho
Vendo seus grandes olhos
Percebo o que você significa para mim
Bolos ou milkshakes
Sou um anjo desiludido
Sou um desfile de fantasia
Quero que saiba o que penso
Não quero mais que adivinhe
Você não faz idéia de onde vim
Não sabemos para onde estamos indo
Jogados na vida
Como ramificações de um rio
Correndo rio abaixo
Pescados pelo presente
Te levarei. Me levarará
É como deve ser
Você não me conhece
Não me conhece até agora.

*Poeta andarilho em Before Sunrise(1995)

segunda-feira, 28 de julho de 2008



Desespero

Castro Alves

"Crime! Pois será crime se a jibóia

Morde silvando a planta, que a esmagara?

Pois será crime se o jaguar nos dentes

Quebra do índio a pérfida taquara?

"E nós que somos, pois? Homens? — Loucura!

Família, leis e Deus lhes coube em sorte.

A família no lar, a lei no mundo...

E os anjos do Senhor depois da morte.

"Três leitos, que sucedem-se macios,

Onde rolam na santa ociosidade...

O pai o embala... a lei o acaricia...

O padre lhe abre a porta à eternidade.

"Sim! Nós somos reptis... Qu'importa a espécie?

— A lesma é vil, — o cascavel é bravo.

E vens falar de crimes ao cativo?

Então não sabes o que é ser escravo!...

"Ser escravo — é nascer no alcoice escuro

Dos seios infamados da vendida...

— Filho da perdição no berço impuro

Sem leite para a boca ressequida...

"É mais tarde, nas sombras do futuro,

Não descobrir estrela foragida...

É ver — viajante morto de cansaço —

A terra — sem amor!... sem Deus — o espaço!

"Ser escravo — é, dos homens repelido,

Ser também repelido pela fera;

Sendo dos dois irmãos pasto querido,

Que o tigre come e o homem dilacera...

— É do lodo no lodo sacudido

Ver que aqui ou além nada o espera,

Que em cada leito novo há mancha nova...

No berço... após no toro... após na cova!...

"Crime! Quem falou, pobre Maria,

Desta palavra estúpida?... Descansa!

Foram eles talvez?!... É zombaria...

Escarnecem de ti, pobre criança!

Pois não vês que morremos todo dia,

Debaixo do chicote, que não cansa?

Enquanto do assassino a fronte calma

Não revela um remorso de sua alma?

"Não! Tudo isto é mentira! O que é verdade

É que os infames tudo me roubaram...

Esperança, trabalho, liberdade

Entreguei-lhes em vão... não se fartaram.

Quiseram mais... Fatal voracidade!

Nos dentes meu amor espedaçaram...

Maria! Última estrela de minh'alma!

O que é feito de ti, virgem sem palma?

"Pomba — em teu ninho as serpes te morderam.

Folha — rolaste no paul sombrio.

Palmeira — as ventanias te romperam.

Corça — afogaram-te as caudais do rio.

Pobre flor — no teu cálice beberam,

Deixando-o depois triste e vazio...

— E tu, irmã! e mãe! e amante minha!

Queres que eu guarde a faca na bainha!

"Ó minha mãe! ó mártir africana,

Que morreste de dor no cativeiro!

Ai! sem quebrar aquela jura insana,

Que jurei no teu leito derradeiro,

No sangue desta raça ímpia, tirana

Teu filho vai vingar um povo inteiro!...

Vamos, Maria! Cumpra-se o destino...

Dize! dize-me o nome do assassino!..."

_________________

"Virgem das Dores,

Vem dar-me alento,

Neste momento

De agro sofrer!

Para ocultar-lhe

Busquei a morte...

Mas vence a sorte,

Deve assim ser.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Pois que seja! Debalde pedi-te,

Ai! debalde a teus pés me rojei...

Porém antes escuta esta história...

Depois dela... O seu nome direi!"

Depois da estação.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Foi lá, depois da estação de trem. Como num quadro pintado por um ambulante. Com um cotidiano qualquer, atravessou. Entre crianças chorando no chão e um velho pitando seu molhado paiêro, avistou. Não eram prodígios, nem se tratava de um Souza Paiol. Ela se foi.
As palavras sufocaram-lhe por um tempo. Engasgado com a resignação de uma conquista perdida por rotas distintas. E pensou consigo mesmo, a praça Santos Dumont não pode ser obra do acaso. Foi bem ali que Bia conheceu seu amor e não poderia ser em outro lugar.
Onde estaria guarda José senão na praça ferroviária? E continuou a passos largos, com uma sensação de alívio. Já que amores ocorrem em lugares quaisquer, por que não naquele postal quase antigo? Vive de novo! Em paz.*

A estação original em 1919.
A segunda estação em 1922.
A estação, foto sem data.**

*Baseado em fatos reais, os nomes são fictícios.
**Fotos retiradas de http://www.estacoesferroviarias.com.br/ms_nob/tres.htm

Isto não é sério não, tá?

domingo, 22 de junho de 2008

Quanto sono, quanto de mim ja ficou por lá. Em quantos já fiz bem? Arrependo-me de não ter sido tanto. Sou pouco, fraco, pobre, cansado. Vou deitar, memorar, tentar sonhar bem, descansar. Tenho muito a fazer, a construir, ajudar, destruir. Sou chato, cheio de manias, canto na hora errada e acordo cedo demais. incomodo. não to nem aí pra essas acentuações. às vezes accho isso tão besta, accho com dois cês é tão mais bonito pra se ler, só pra ler é claro. acho bonito um texto sem letras maiúsculas... Isso é parte de mim. Mais um dia daqueles de bolo, guaraná, amigos, quase amigos, desamigos, abraços e falsos. mas sou esse aí. Sentado na poltrona, adoro a madrugada, pc, TV e livro. Isso é parte de mim. Não sou de co-memorar, prefiro brincar e memorar. E também não sou muito fã de geniais, prefiro os puros e insensatos, estes me fazem bem. E sei ser chato, finjo ser poeta, musico e sei lá o que. mas isso é de brincadeira, por diversão. Sou mesmo é esse aí, quase sempre bem-humorado, mas nem sempre sei me fazer entender. esse texto, fiz de brincadeira. Só pra manter o blog atualizado e dizer que postei algo. só isso. E hoje, vai ter jogo do Misto F.C. vou assistir. Não sou fanático por futebol, mas sei lá, não gosto de ficar em casa em dia de aniversário. Agora vem o sentimento de culpa, juro que to morrendo de sono, mas queria deixar algo, que me perdoem os gramáticais, linguistas e bla. Só queria escrever e dizer que amo. Eu disse isso? Que viagem. Pronto, falei demais já. Namastê.

Ontem deitei às seis de triste e cansado
Acordei a pouco, vim e escrevi
tentativa de poetizar mais imperfeita
Ridícula, hoje tudo é ridículo
A prosa, a poesia, o texto
Até o dormir foi ridículo
As seis, era sábado!

Nem titia, titio, primos,
pai e mãe me animaram,
e o telefonema, fiz que não ouvi.
Queria dormir, nada de festa
To cansado, sem paciencia
E festa, pra quê!?
Deu sono de novo,
vou dormir
Pronto, agora sim,
Consegui ser mais ridículo ainda.

Nada de soneto e texto legalzin,
hoje é dia de ser bocó, eu sou bocó!
Queria que conhecem essa parte de mim
Ridículo, sei ser bocó, bobo já nem falo mais.
Só queria dizer que amo.
Sim, eu disse isso.
Hoje é dia de memorar
não quero comemorar,
hoje quero o dia pra mim,
só lembrar de quanto tentei,
em muito fracassei,
mas se precisarem de mim,
meu quase máximo terão,
e de novo,
deu vontade de chorar,
o bom de tudo é que eu amo,
sempre amo.

Sou chato, bocó e amo.
Sempre fui assim,
Ilusão faz parte de mim.

Agora a frase de efeito.
Não tenhais medo, vós valeis mais do que guardais. Ouvindo o Padre repetir
amém!

*Imagem intitulada Agua de beber. Por Nathy Silva